Não é possível falar sobre cinema sem falar de “Linguagem Audiovisual”, afinal, o cinema consiste, o cinema é Áudio (som) + Visual (Imagem).
A Linguagem Audiovisual, a linguagem cinematográfica, consiste em 4 pilares fundamentais: plano (imagens), narrativa, montagem e efeito (especiais, de linguagem etc.).
É evidente também, que não podemos falar de tudo isto sem mencionar os mestres cinematográficos, os estetas do cinema, os fazedores, os caras que fazem isto acontecer, ou se preferir, simplesmente ‘diretores’.
Ao longo das décadas conhecemos mestres inovadores, que criaram novos estilos e linguagens, mas conhecemos também, caras que aperfeiçoaram tudo isto, o que não faz destes menos competentes, muito pelo contrário.
Costumo dizer ou pensar que tenho três heróis: Alfred Hitchcock, Howard Hawks e Billy Wilder.
Estes três nomes supracitados são nomes que, você pode ter certeza, vão continuar influenciando o cinema e a linguagem audiovisual daqui a 100 anos. O legado destes três realizadores é incalculável.
Claro que a frente deles, ou ao menos no mesmo patamar, devemos deixar menção honrosa a caras como Meliés, Griffith, Eisentein, Rossellini e Welles, principalmente, entre outros, que foram realizadores revolucionários e que estabeleceram regras e estilos que são vigentes até os dias atuais, mas quando cito Hitchcock, Hawks e Wilder me atenho a parte mais pessoal da coisa, porque estes três, a meu ver, foram diretores que levaram a linguagem cinematográfica e o audiovisual a um nível quase que imbatível.
Em tempos aonde um bando de pseudo intelectuais questionam a “profundidade” ou a “inteligência” dos filmes, estes caras faziam cinema, cinema em estado bruto. Não estou dizendo que os filmes não podem ou não devem ser profundos, conter mensagens, indagamentos, críticas ou questionamentos sociais e humanos, muito pelo contrário, mas antes de mais nada, estamos falando de cinema, e cinema é entretenimento, é arte. Cinema deve ser uma experiência agradável e prazerosa de alguma forma, independentemente do tema que aborde, de modo que, quando assistido, deva parecer Cinema, e não um telejornal.
Abaixo, Hitchcock reforçando o paragrafo acima:
“A verossimilhança não me interessa. É o mais fácil de fazer (...). Sejamos lógicos: se alguém quiser analisar tudo e construir tudo em termos de plausibilidade e verossimilhança, nenhum roteiro de ficção resistiria a esta análise, e somente se poderia fazer uma coisa: documentários (Le Cinema Selon Hitchcock, Éditions Robert Laffont, Paris, 1966).”
Alfred Hitchcock, em 1956.
Em cima desta fala de Hitchcock, supracitada, o cinema do próprio diretor e também de Howard Hawks passa a fazer mais sentido: um filme não deve, necessariamente, ter o convencional “começo, meio e fim”. Um filme pode e deve ter situações sem explicação e em alguns casos até sem sentido.
‘Intriga Internacional’ (1959) de Hitchcock, é muito provavelmente, a prova cabal disto. O protagonista, interpretado brilhantemente por Cary Grant, é um publicitário de Nova York que é confundido com um agente do governo por uma gangue de espiões. A partir daí, o filme se torna uma correria só, com Grant fugindo e sendo perseguido pelos EUA inteiro, sem nenhum motivo aparente.
Cary Grant em cena de 'Intriga Internacional', de 1959.
Hawks faz algo parecido em o seu “Á Beira do Abismo” (1946), aonde a história, complicada e cheia de reviravoltas, é mera desculpa para que o diretor se esmere em construir a atmosfera sórdida e nebulosa, em que nada é o que parece.
Cary Grant em cena de 'Intriga Internacional', de 1959.
Hawks faz algo parecido em o seu “Á Beira do Abismo” (1946), aonde a história, complicada e cheia de reviravoltas, é mera desculpa para que o diretor se esmere em construir a atmosfera sórdida e nebulosa, em que nada é o que parece.
Estes cineastas, no entanto, foram considerados pelos intelectuais de outrora, como comuns, medíocres, ou “pouco autorais”, por fazerem filmes populares, a época, e por muitas vezes, dentro de suas próprias filmografias, voltarem a abordar um mesmo tema mais de uma vez, como por exemplo, Hawks, em sua trilogia “descompromissada”: ‘Rio Bravo’ (1959), ‘Rio Lobo’ e ‘El Dorado’ (1970). Os três filmes, basicamente, possuem a mesma estrutura e o mesmo mote, com apenas algumas modificações pontuais.
O diretor Howard Hawks.
“Ao invés de mera repetição, um dos predicados de grandes cineastas é o estilo consistente e reconhecível e o aprofundamento de temas aos quais retornam dentro de um universo similar. Uma questão de renovação e diferença. O que é constante em filmografias como as de Hitchcock e Howard Hawks, que em mais de uma oportunidade deixaram a impressão de refazer um mesmo filme para criar outro parecido e ao mesmo tempo tão distinto (Vlademir Lazo, em crítica para o site Cineplayers).”
Por fim, citemos o mais exigente, e muito provavelmente o mais autoral, destes 3 cineastas que considero como heróis: Billy Wilder.
Assim como contemporâneos como Woody Allen e Quentin Tarantino, que são conhecidos por roteirizar (escrever o roteiro) e dirigir seus filmes, Wilder, desde o final da década de 30, já fazia isto. Wilder dizia: “não existe um bom filme sem um bom roteiro, independentemente do diretor.” Talvez por isso ele tenha participado do roteiro de todos os seus filmes.
Hawks e Wilder, principalmente, foram provavelmente os realizadores mais versáteis da história do cinema. Nenhum diretor teve tanto êxito, passando por tantos gêneros distintos quanto eles.
A filmografia de Wilder é repleta, principalmente, de ironias, críticas e muito sarcasmo, sempre aliado ao inconfundível tino cômico do diretor.
Billy Wilder foi o responsável por filmes corajosos como “Pacto de Sangue” (1944), “Farrapo Humano” (1945), “Crepúsculo dos Deuses” (1950), “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), além de outros clássicos absolutos como “O Pecado Mora ao Lado” (1955), “Testemunha de Acusação” (1957), “Quanto Mais Quente Melhor” (1959) e “Se Meu Apartamento Falasse” (1960).
Os filmes do diretor, analisados inicialmente e vagamente, podem soar como despretensiosos, mas são muito mais profundos do que parecem, caso de “Se Meu Apartamento Falasse”, por exemplo. Filme que aborda os temas casamento, adultério, amor, traição, solidão, e a luta pela ascensão social, diluído em uma “comédia”. Neste caso, Wilder, muito habilmente constrói o lado humorístico do roteiro antes de descascar o humor, camada por camada, até que vemos a desolação por detrás dele.
Outra perola brilhante na filmografia do diretor é “A Montanha dos Sete Abutres”, filme que retrata a falta de ética jornalística e o sensacionalismo.
O diretor Billy Wilder posa com seus 6 Oscares conquistados ao longo de sua carreira.
Mas é claro que quando se fala de Billy, seu filme mais lembrado é o eterno “Crepúsculo dos Deuses”, de 1950, filme este que figura nas primeiras colocações de praticamente todas as listas de melhores filmes de todos os tempos. É necessário muito coragem, ou falando o português bem claro, muito “saco roxo” pra escrever e dirigir um filme como este. Qualquer um enxergaria realizar um filme destes como um tiro no próprio pé, mas não Wilder. Um tiro no próprio pé, pois o filme, uma produção da Paramount, ou seja, uma produção de Hollywood descascava e criticava a própria Hollywood, a própria indústria cinematográfica. A época, Wilder colecionou dezenas e dezenas de inimigos e desafetos por esta que, por fim, seria, muito provavelmente, a prova definitiva de seu domínio audiovisual, cinematográfico e autoral, que se tornaram marca de seu excepcional cinema.
Hawks, o mais velho dos três, se despediria do cinema em 1970. Hitchcock se despediria do cinema em 1976. E por fim, Wilder se despediria em 1981.
Ainda desta memorável geração de diretores, que ficou na ativa entre os anos 30 e 60 e 70, mais ou menos, temos a obrigação de citar mestres como William Wyler, David Lean, John Huston, Nicholas Ray, Elia Kazan, Orson Welles, Chaplin, Fritz Lang, Joseph L. Mankiewicz etc.
Mas já entre as décadas de 60 e 70, muitas “promessas” surgiram, a chamada “Nova Hollywood”, dando continuidade no legado deixado por estes mestres. Nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Woody Allen, que são os meus heróis nesta nova geração de mestres, além de outros craques como Brian De Palma, George Lucas, Steven Spielberg, Clint Eastwood, Roman Polanski etc.

Da esquerda para a direita: Steven Spielberg, Martin Scorsese, Brian De Palma, George Lucas e Francis Ford Coppola, cinco dos maiores expoentes do cinema norte-americano dos anos 70 em diante.
Bem no meio desta transição da “Era de Ouro” - a velha Hollywood - pra nova, surgem nomes de peso como o de Stanley Kubrick, Sidney Lumet, John Cassavetes e mestres europeus como os franceses Jean-Luc Godard e François Truffaut, o sueco Ingmar Bergman, os italianos Michelangelo Antonioni, Fellini e Sérgio Leone, entre alguns outros.
É engraçado meu discurso soar saudosista, pois saudosismo costumar ser algo de gente mais velha, que sente saudade de uma época que viveu, e que considera esta época, melhor que a atual, porém, o velho Cinemão, aquele cinema autoral, câmera na mão, com menos recursos técnicos, mas com mais recursos puramente cinematográfico, realmente criativo, diferenciado ficou, sem a menor sombra de dúvidas, nas décadas passadas.
Não que eu seja imbecil a ponto de condenar a tecnologia. Ela está ai pra ser usada e abusada, ela é útil, vivemos o tempo dela e devemos nos acostumar com ela, o grande problema é o mau uso dela para produções sem-vergonha, como essas “sagas” de vampiros e/ou pseudo terror, que nos infernizam durante 5 ou 6 seis anos seguidos, com seus lançamentos divididos em seis, sete ou oito partes. Como esses diretores da estirpe de Michael Bay, que, querendo ou não, são diretores comercialmente consagrados, mas que desperdiçam todos estes recursos que tem a mão. Ao invés de usarem tudo isto para criar coisas inovadoras e diferenciadas, um cara desses, me anuncia um Remake de um eterno clássico de Hitchcock: “Os Pássaros”, de 1963. O eterno mestre do suspense deve se revirar em seu túmulo ao ver uma notícia dessas. Em contra partida, temos diretores mais jovens e também com um cinema considerado comercial, mas que fazem bonito e dão conta do recado, casos de Michael Mann e David Fincher (estes nem tão jovem assim), Christopher Nolan, James Gray, o brasileiro José Padilha, entre alguns outros. Que fique claro: não tenho absolutamente nada contra o cinema comercial, tenho tudo contra o cinema ruim, seja ele rotulado de “Cult” ou “Comercial”.
Em suma, aos trancos e barrancos, o Cinema e a Linguagem Audiovisual, de uma forma ou de outra, sempre dão um jeito de se reinventarem e seguirem em frente. Deixo uma pergunta final: vocês gostam de imaginar o que os mestres de outrora fariam com todo o aparato tecnológico atual em mãos, ou não, cada qual no seu tempo?
Quem quiser se aprofundar na filmografia dos 3 mestres que são citados em destaque ao longo deste texto, deixo abaixo aqueles que, a meu ver, são os 5 melhores filmes de cada um dos três.
Alfred Hitchcock:
- 'Janela Indiscreta' (Rear Window), 1954 / 'Intriga Internacional' (North By Northwest), 1959 / 'Psicose' (Psycho), 1960 / 'Interlúdio' (Notorious!), 1946 / 'Os Pássaros' (The Birds), 1963.
Alfred Hitchcock:
- 'Janela Indiscreta' (Rear Window), 1954 / 'Intriga Internacional' (North By Northwest), 1959 / 'Psicose' (Psycho), 1960 / 'Interlúdio' (Notorious!), 1946 / 'Os Pássaros' (The Birds), 1963.
Billy Wilder:
- 'Crespúsculo dos Deuses' (Sunset Boulevard), 1950 / 'Testemunha de Acusação' (Witness For The Prosecution), 1957 / 'A Montanha dos Sete Abutres' (Ace In The Hole), 1951 / 'Se Meu Apartamento Falasse' (1960) / 'Cupido Não Tem Bandeira' (One, Two, Three), 1961.
Howard Hawks:
- 'Onde Começa o Inferno' (Rio Bravo), 1959 / 'Hatari!' (Hatari!), 1962 / 'El Dorado' (El Dorado), 1966 / 'À Beira do Abismo' (The Big Sleep), 1946 / 'Rio Vermelho' (Red River), 1948.
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